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Jung & Steiner: convergências teóricas.

Autora: Carolina Geisel Ortiz Romano

Jung & Steiner: convergências teóricas.

A diversidade teórica sobre os processos de individuação e transformações psicoemocionais ao longo da vida é enriquecedora. Algumas teorias despertam, em mim, maior interesse e afinidade. Algumas delas são, inclusive, convergentes em muitos aspectos. É o caso de muitos feitios da trajetória de individuação e da teoria Analítica de Carl Gustav Jung e que se aproximam muito de pontos elucidados na Ciência Espiritual de Rudolf Steiner, a Antroposofia.

Em algumas passagens, durante o curso da minha formação analítica, me remetia a vários conceitos e ligações entre as teorias de Jung e Steiner. O que me levavam a imaginar que Jung teria lido e se inspirado, em algum momento, nas obras de Steiner. A partir de então, entendi que poderia haver uma inspiração para trabalhar ambas as teorias, buscando uma completude de informações e descobertas sobre o Homem, para além da sua questão física, consciente e inconsciente. Havia possibilidade de buscar e se inspirar nos conceitos suprassensíveis, místicos e espirituais.

Rudolf Steiner nasceu na Áustria em 1861, 14 anos antes de Jung. Estudou Filosofia e Teosofia e se interessou pelos escritos de Goethe, chegando a se encarregar de editar suas obras. Jung também tem bastante inspiração das obras de Goethe, citado este como seu principal mentor filosófico. Steiner rompe com a Teosofia e cria a Antroposofia em 1913, mesmo ano em que Jung rompe com Freud e caminha sozinho, para a estruturação da sua Psicologia Analítica.

Carl Gustav Jung nasce na Suíça, em 1875. Estuda Medicina e Psiquiatria. Interessa-se por mediunidade e fenômenos ocultos. Torna-se o principal discípulo de Freud, mas rompe com ele, por divergirem em alguns conceitos. Jung entra num profundo e sofrido processo de individuação, onde se depara com alguns fenômenos suprassensíveis, sonhos, intuições e visões místicas, tendo experiências psíquicas de cunho espiritual que inspiram a construção da sua teoria.

Ambos compartilhavam desse mesmo referencial filosófico. Steiner teve muita inspiração nas obras de Goethe, escrevendo sobre ele e sua filosofia, além de organizar a edição de suas obras por muito tempo. Também para Jung, ele exerceu grande influência, tendo o mesmo chegado a afirmar “meu padrinho e mentor era o grande Goethe”.

Além das bases de inspiração filosófica e trajetórias de autoconhecimento para os estudos de ambos os teóricos, alguns outros aspectos levantados posteriormente em suas teorias, traçam caminhos semelhantes sobre as descobertas dos processos de individuação do Homem. Embora sem propósito de um estudo aprofundado, fazendo uma análise mais rasa, porém não menos importante, podemos estabelecer alguns paralelos entre a Psicologia Analítica de Jung e a Antroposofia de Steiner.

Ambos referem ser a consciência algo além do processo de racionalizar, destacando a importância do aumento constante de consciência de si mesmo, para encontrar um significado próprio de si. Também convergem sobre o inconsciente e ao inconsciente coletivo. Para Steiner e Jung, o desenvolvimento da criança sofre influência da internalização da postura dos pais, do seu inconsciente, mais até que de suas atitudes externas. Steiner chega a ir além, destacando a interferência desses aspectos na formação da própria corporalidade da criança.

Steiner fala no conceito de Doublé, uma entidade interior que é nós mesmos e que traz a herança filogenética e também as marcas do bem e do mal que nossa individualidade teria praticado ao longo de várias encarnações. Em geral o aspecto desse Doublé seria perturbador em virtude de um desvio primordial cometido de um arquetípico Homem Celeste, cuja imagem seria o próprio Cristo. Esse conceito de Doublé é, analogamente, uma referência ao conceito de sombra de Jung, baseado nas influências dos arquétipos coletivos e da ancestralidade que formam a imagem humana.

Steiner e Jung concordam quanto à individualidade estar dissolvida em etapas anteriores do desenvolvimento da humanidade.

Para Steiner o akasha, palavra em sânscrito que significa céu ou éter da cosmologia, contém toda a história não só da humanidade, seu passado, presente e futuro, como da própria origem da terra, definindo-se tal qual o inconsciente coletivo de Jung, presente em sonhos, produções artísticas, mitos e lendas. O akasha de Steiner poderia ser traçado como paralelo ao conceito de inconsciente coletivo da Psicologia Analítica Junguiana.

Sobre os sonhos, Steiner e Jung os destacam como ponto muito importante das suas teorias. Steiner entende que há realmente uma vida vivida ao dormir, quando nos encontraríamos nos mundos espirituais e teríamos um acesso direto ao akasha. É como o processo de morrer. Enquanto o corpo físico-etérico dorme, o eu está plenamente ativo e clarividente. Assim como Jung, Steiner considera importante o registro dos sonhos, que são certas experiências do eu, combinadas com reminiscências da memória. O significado simbólico dos sonhos para a Antroposofia é o resultado do predomínio de imagens astrais, traduzidas pelo eu. Steiner indica que temos dificuldades em lembrar os nossos sonhos, pois ao dormir os corpos estão separados e o corpo etérico, que é o portador da memória, está “frouxo” ou relaxado.

Jung deu grande importância aos sonhos em suas abordagens e os entende como ferramentas elementares para a compreensão da natureza humana, para o conhecimento das camadas do inconsciente, pessoal e coletivo, colocando os arquétipos em destaque. É o próprio sonho que nos fornece maior parte do material empírico para a exploração do inconsciente e coloca a importância em analisar os sonhos como maneira de entender o processo evolutivo da personalidade. Entende que não há um método de “interpretação” do sonho previamente estabelecido, mas este é um processo de co-criação entre terapeuta e o sonhador, em busca da simbolização de aspectos dos sonhos que serão compreendidos a partir do desvendar do próprio sonhador. É ele, com a ajuda do analista junguiano, que desvenda os particulares significados simbólicos de cada elemento presente em seu sonho.

Se o objetivo de Jung com a Psicologia Analítica era a busca de individuação, para Steiner era a iniciação. Ambos seguem os mesmos passos em seu processo. Para Steiner o caminho da iniciação é um defrontar-se consigo próprio rumo ao “homem superior”. Nesse caminho encontra-se o guardião do limiar, bastante semelhante ao encontro da sombra no processo de individuação de Jung.

Podemos perceber muitos outros pontos em comum entre os dois: a noção de polaridade, o andrógino presente no conceito de ânima e o animus, a importância atribuída aos contos de fadas, lendas e mitologias; o interesse e o estudo da alquimia, astronomia e astrologia, bem como a ancestralidade e a história das civilizações no processo de desenvolvimento do homem numa perspectiva integrativa.

Gostaria de destacar aqui um dos aspectos que mais me chamaram a atenção na minha intuição sobre as convergências teóricas entre ambos: a metanóia de Jung e a crise da autenticidade de Steiner.

Metanóia significa mudança de conceito, ou de caminho. Jung destaca o conceito de metanóia como processo característico da individuação. É o limiar que separa a primeira e a segunda metade da vida. Não se trata de uma mudança polarizada de caminhos, mas de uma conservação de antigos valores, acrescidos de um reconhecimento de seus contrários. Há uma incorporação dos opostos, em busca do novo. É um movimento volitivo, com participação ativa da consciência. Em suma, é uma mudança de caminhos, realinhando o indivíduo com sua totalidade.

Jung traz o conceito da metanóia para a crise da terceira idade (ou até antes disso, por volta dos 42 anos), onde deve haver um realinhamento e uma reorientação do indivíduo. É um momento de crescimento profundo em que a pessoa consegue ressignificar a sua atuação no mundo. É onde, por vezes, preocupa-se com o sentido da vida e acontece uma busca espiritual maior. O foco da energia psíquica do indivíduo se transpõe da dimensão externa, para um contato maior com as questões do mundo interno.

A metanóia muitas vezes surge na forma de crise, com base na experiência simbólica da morte e renascimento, fazendo com que os indivíduos repensem sua existência.

A superação da crise da metanóia acontece quando há uma ressignificação do si mesmo, um confronto com sua sombra, representando o inconsciente e todas as dimensões negadas, reprimidas ou indiferenciadas. Essa função transcendente da superação criativa da crise da metanóia favorece o saudável processo de individuação citado por Jung.

Steiner fala, analogamente, sobre a Crise da Autenticidade, que acontece no Sexto Setênio, entre 35 3 42 anos. É a última fase do desenvolvimento da alma propriamente dita. Neste setênio (conjunto de 7 anos que se modulam de maneira cíclica e baseiam a teoria antroposófica), o homem vive a Alma da Consciência, onde busca chegar à essência pura do seu ser e questiona a si mesmo. O indivíduo passa a repensar e reavaliar sua própria trajetória. O desafio desse setênio é encontrar valores espirituais e reconhecer a si mesmo como ser individuado.

Como é abordado na teoria junguiana, o sexto setênio e sua Crise da Autenticidade, traz um desaceleramento natural das ânsias dos setênios anteriores. A energia psíquica se reacomoda no centro do eu. Sai do externo e encontra forças nas questões do próprio eu.

Assim como Jung traz na sua metanóia da terceira idade, Steiner indica que nesse setênio há um contraponto essencial entre buscar algo novo e aceitar sua história e experiências de vida.

Como Jung destaca a idade central dos 42 anos, como ponto alto da metanóia, trago também o sétimo setênio, que acontece entre os 42 e 49 anos. É a alma da imaginação. Aqui o indivíduo alcança uma nova visão e entende que encontrou as próprias respostas.

Esse setênio traz o contraditório, as polaridades: mudanças, busca do novo, mas o envelhecimento assusta, gera ansiedade, muda o comportamento com relação a nós mesmos e ao mundo. É a fase onde o ser humano adquire coragem para atuar, aumenta a capacidade de ser altruísta e assumir riscos.

Essa fase tem um sentido de recomeço. É momento de buscar algo novo para dar sentido à vida. Não há mais um ar melancólico, pois o indivíduo já se vê empoderado a fazer as mudanças que deseja. Esse conceito é trazido em ambas as teorias.

Sucumbimos à força da sombra, daquilo que está diretamente ligado aos aspectos pessoais não integrados.

Steiner também destaca os 42 anos. Para ele essa é a idade da chegada do eu.

Esse momento transitório dos 42 anos que marca o fim da Crise da Autenticidade de Steiner é o marco para a fase da maturidade do ser.

Não existe um conhecimento absoluto sobre o Homem. Cada filósofo, pensador ou teórico contribui com uma parcela para formar esse grande conhecimento. No caso das contribuições de Jung e Steiner, incorpora-se, com propriedade, os conceitos que formam o Homem um ser integrado, considerando suas questões emocionais e espirituais, de forma interligada a ele mesmo, às entidade inconsciente e ao Cosmos, transpondo o Homem a uma condição completa de ser Bio-Psico-Social-Divino-Espiritual.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.

Jung, Carl G. O Homem e seus símbolos. 3 edição. Editora Harper Collins, 2016.

Lanz, Rudolf. Noções básicas de Antroposofia. 7 edição. São Paulo, Editora Antroposófica, 2005.

Moraes, Wesley A., Freud, Jung e Steiner, sondagens da natureza humana. Juiz de Fora: Sociedade Brasileira de Médicos Antroposóficos, 1996.

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